Memórias Póstumas de Sérgio Moro
Sérgio Moro
Imagem: Dida Sampaio/Estadão Conteúdo

Ao leitor que primeiro roer as quentes letras do meu texto, dedico com saudosa lembrança, estas memórias póstumas. Sim leitor, sou eu, Sérgio Moro. E sim, me inspirei na obra de Brás Cubas, quase a plagiei na verdade. E vós sabeis que plágio é crime, não? Mas não ouse me incriminar, caro leitor, por que para isso precisará de provas. Não se pode incriminar alguém sem provas, certo? Sim, certo! Mas se fores esperto como eu, entenderás que apenas convicções bastam.  

Plágio é crime, eu sei, está na lei. Entendo de lei por que fui juiz. Digo fui por que não sou mais. E não sou mais por que me vendi. E me vendi, caro leitor, para ser ministro. E fui ministro. Digo fui por que não sou mais. Entenda bem isso leitor, não fui um ministro defunto, mas um defunto ministro. Entendo de lei por que fui juiz, entendo de crime por que fui ministro.

Também vivi amores, em minha vida, não como os de Brás, é verdade. Mas também tive minha Marcela, minha Eugênia e minha Vigília… Meu primeiro romance, ainda na flor da idade, se chamava Lava Jato. Amei-a intensa e egoístamente, amei-a mais do que a minha própria toga. Fiz bem a ela, mas também fiz mal. Sim leitor, traí egoistamente o meu amor, por ego e vaidade. Amei-a profundamente, por 4 anos e uma vaga no STF.

Ao mesmo tempo que a traição meu consumiu, estava loucamente encantado com uma nova paixão: a de ser Ministro da Justiça. Esse foi meu segundo romance. E fui Ministro da Justiça, digo fui por que não sou mais, já sabeis disso leitor. Me casei, com festa e tudo. Confesso que me senti ao mesmo tempo enganado e orgulhoso. Enganado por que foi um casamento arranjado, mas orgulhoso por chegar, sem muitos esforços, a esse posto. Ah, como fui feliz. Digo fui, porque…

O vício é muitas vezes o estrume da virtude. Encontrei essa frase nas memórias de meu amigo Cubas. Disse Cubas companheiro leitor, de Brás Cubas, não vá se assustar eim. Estava viciado, talvez ainda esteja. E um coração viciado, é um coração iludido. Gostei desta frase, faço questão de registrar que é minha. Vício também é ingratidão. Tinha tudo, mas me faltava ela. Sim leitor, ela mesmo, a formosa prometida. Ah, minha querida cadeira do STF. Como te amo! Fiz tudo pelo seu amor, traí aos outros e a mim mesmo, só por você. Um amor proíbido contra tudo e contra todos… E a perdi, a escorregar, entre os meus braços.

Encerro essas memórias póstumas, apenas com negativas. Fui juiz, fui ministro, mas não fui do STF. Tive tudo e ao mesmo tempo nada. Muitos me amam e outros me conhecem. Fui vivo. Digo fui por que não sou mais.

Por Felipe Lamellas
Graduando em Jornalismo (UNESP)