Porto Ferreira Ontem – As Enchentes - I
Foto: Enchente do Ribeirão Santa Rosa, 1929, acervo do professor João Araújo Filho.

Geograficamente, localizado na depressão periférica do Estado, tendo, no limite nordeste, próximo da divisa com Santa Rita do Passa Quatro, uma porção da Cuesta Basáltica - onde sobressai o Morro Alto, o ponto mais alto com 798 metros, presente na fazenda homônima, e com leves oscilações em diversas propriedades daquela região -, o município de Porto Ferreira se insere num vale em sua topografia, adornado pelo rio Moji Guaçu, outrora, um dos mais piscosos do Estado de São Paulo. Em face dessa situação, o lugar sempre foi alvo de inundações em períodos de chuvas, com um aumento no volume de água, cujo nível avança dois ou três metros de dezembro a meados de abril, atingindo a velocidade de 10 quilômetros horários, conforme notas de Schubart (1949, p. 146).

O primeiro registro de enchente, em terras ferreirenses, ocorreu em 1919, quando as águas danificaram a ponte do córrego Santa Rosa. No entanto, grande inundação sucedeu dez anos depois: invadindo as várzeas do rio Moji Guaçu, as águas do aludido córrego avançaram sobre parte da estrada de ferro, que ficava paralela à atual Avenida Rudolph Streit. As chuvas incessantes de fevereiro também derrubaram a ponte da estrada estadual sobre o ribeirão Bonito, interrompendo o acesso entre os moradores de fazendas e os da cidade. Por outro lado, a Usina São Valentim, fonte geradora de energia elétrica, extremamente vulnerável ante o aumento do volume das águas do rio Claro, suspendeu a distribuição por dias, deixando Porto Ferreira às escuras. Após a famosa cheia, na ocasião filmada por Máximo Fenili, a diminuição das chuvas resultou nos esparsos pontos alagadiços, responsáveis por epidemia de malária, proveniente de mosquitos transmissores. Destacou-se como a maior enchente, nos 41 anos seguidos, medindo 6m60cm na régua instalada em Cachoeira de Emas (em torno de 7m20cm, em Porto Ferreira).

Schubart (1949, p. 126) registra outra cheia ocorrida no dia 12 de fevereiro de 1940, quando a régua, em Cachoeira de Emas, como referência, registrou 3m87cm.

É de saber público que, de dezembro a março, a ação de chuvas torrenciais marca acontecimentos trágicos. Assim, em 1946, no início de fevereiro, uma tempestade desabou sobre o município, derrubando muros, alagando diversas casas e provocando funestas consequências. Segundo “O FERREIRENSE” (10.2.1946, p. 2):

[...] - No bairro de Botafogo uma faisca eletrica caiu na casa do sr. Horacio Roberto de Lara matando um cachorro que se achava oculto sob o leito e com a violencia da faisca, atirou a sra. Benedita, filha do sr. Horacio, com 28 anos de idade, a distancia e na queda bateu com a cabeça num móvel cauzando extenso corte no couro cabeludo; outra sua filha de nome Terezinha e uma senhora que não conseguimos saber o nome, tambem sofreram quedas porem sem gravidade.

[...] A mesma faisca tambem alcançou a casa do sr. Albino Rodrigues, rachando o batente da porta de cima a baixo, não havendo, porem, algo a lamentar.

No ano seguinte, a enchente causou dano à olaria e à casa do senhor Jácomo Gentil, assim como aos ranchos do senhor José Ramos. Conforme “O FERREIRENSE” (9.3.1947, p. 3): “O Mogy represando o ribeirão Santa Rosa fez com que as águas subissem á estrada de rodagem interrompendo o transito por alguns dias.”.

Contendo o nível médio variável entre 1m e 1m20cm, a soma de dois metros ocasiona motivo de preocupação para com o bem estar geral, sobretudo, para moradores ribeirinhos, modestos habitantes de ranchos.
Em fins de janeiro de 1958, de acordo com “O FERREIRENSE” (2.2.1958, p. 1), nova cheia atingiu Porto Ferreira, “devido às grandiozas chuvas que caíram em tôdo o Estado”, e submergiu as várzeas do Moji Guaçu e as proximidades da ponte do Santa Rosa, ameaçando a construção da ponte da Via Anhangüera. Preocupado com o malefício, o então prefeito, Oswaldo da Cunha Leme, viajou até a capital paulista para solicitar auxílio ao secretário de saúde do Estado. O risco de crises epidêmicas de impaludismo era eminente, segundo Cunha Leme; por tal, requereu vacinas à Delegacia Regional de Casa Branca. Na ocasião, o chefe do executivo, por meio do jornal “Ultima Hora”, concedeu entrevista sobre o assunto. (continua na próxima semana)



Por Miguel Bragioni
Pesquisador da história de Porto Ferreira  

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