Porto Ferreira Ontem – As Enchentes - III
Ponte metálica em 15 de fevereiro de 1970
Acervo do Museu Histórico e Pedagógico “Prof. Flávio da Silva Oliveira”.

Em 1990, a inundação atingiu a marca de 5m20cm, deixando as autoridades preocupadas e preparadas para qualquer infortúnio. Pela veiculação da gazeta “A SEMANA” (13 a 19.1.1990, p. 1), a avenida dos ranchos, Nossa Senhora Aparecida, “foi inundada numa extenção de 200 metros” (sic), e dois jovens morreram em uma das lagoas naturais originadas na Vila Sibylla.

Cinco anos depois, o nível do rio alcançou 6m10cm, da régua instalada pela ANA (Agência Nacional das Águas), paralela à ponte metálica. Duas situações opostas foram documentadas pelo “JORNAL DO PORTO” (18.2.1995, p. 1), como se verifica: “A enchente deste ano fez centenas de desabrigados, que foram socorridos pela municipalidade [e] o rio tornou-se o ponto atrativo para a população que congestionava o tráfego sobre a ponte metálica.”. As áreas invadidas foram a Vila Sibylla – ranchos -, as Avenidas Totó Ramos e Lázaro José de Araújo, e o sítio São João (“A SEMANA”, 11.2.1995, p. 1).

Outras cheias de destaque foram: 1997, com 5m52cm na medição. Vinte pessoas desabrigadas permaneceram no abrigo provisório instalado no Ginásio de Esportes “Sylvio Marques Filho”; de acordo com o “JORNAL DO PORTO” (9.1.1999, p. 16): “Devido ao rompimento da barragem na cidade de Mogi Guaçu e a abertura das comportas no distrito de Cachoeira de Emas, em Pirassununga”, a marca superou os 4,58m. No entanto, um cidadão de 32 anos faleceu, em decorrência de saltos da ponte metálica, costume imprudente por alguns nessa época; e, finalmente, 2000, quando 75 famílias tiveram seus lares ribeirinhos invadidos pelas águas. O citado Ginásio de Esportes, outra vez, serviu de asilo improvisado para as vítimas.
    
Particularidades das Enchentes

Durante a infância, Sebastião Rocha Cupido residiu na Vila Malaquias, extinta Chácara Major Pereira; recordava-se de que, em épocas de cheias, o lugar se tornava vulnerável, pois, facilmente, as águas invadiam as olarias da vila e a conhecida “Biquinha”, inutilizando a serventia da água desta.

Muitas vezes, os córregos e ribeirões presentes em fazendas e sítios, também se alargam com o volume da água pluviométrica. Conforme testemunho e lembrança dos irmãos Orlando e Antônio Presotto, o Ribeirão dos Patos transbordou, por duas vezes, em seu percurso, levando consigo uma antiga caixa d´água, com poste de sustentação, além de caibros da Colônia Botafogo, na Fazenda Santa Mariana.

Aliás, como curiosidade, no território ferreirense, desembocam no rio Moji Guaçu os seguintes afluentes: Córrego da Pedra de Amolar, Ribeirão dos Patos, Córrego da Água Parada, Rio Corrente (Água Espraiada), Córrego São Vicente, Córrego do Barreiro, na margem direita; Ribeirão do Ouro ou da Laranja Azeda, Córrego da Boa Vista, Córrego Santa Rosa, Ribeirão Bonito e Córrego da Barra Grande ou Água Vermelha, na margem esquerda. Somam-se, também, alguns riachos anônimos.

Na enchente de 1970, do lado direito da ponte metálica, em direção ao bairro Botafogo, residia o Sr. Ismael Hilário de Andrade, jardineiro municipal e responsável pela medida fluviátil. Enquanto as águas subiam da afamada cheia, os moradores ribeirinhos recebiam comunicados sobre o inevitável. No entanto, Ismael, mesmo assim, quis permanecer em sua moradia, devido ao fato de sempre residir no local e nunca ter vivido qualquer ameaça. Não tardou muito para o munícipe gritar, sem cessar, pois, as águas invadiam sua casa. A ajuda veio do barco conduzido pelo prestativo “Toninho da Barra”. Pouco tempo depois, o munícipe Valdomiro Antonio, conhecido como “Jaú”, percebeu que um gatinho, dos animais de Ismael, permanecera encurralado acima de um poste de madeira, instalado próximo da ponte, e, cercado pelas águas, miava desesperadamente. Preocupado com a situação, “Jaú” resolveu socorrer o felino, por meio de uma canoa. Contudo, ao se aproximar do poste, diante do fluxo, a pequena embarcação virou e o cidadão se tornou nova vítima, clamando por socorro. Logo em seguida, o gatinho saltou do poste e nadou até a outra margem, ao passo que “Toninho da Barra”, novamente, retornava com o seu barco para salvar o “Jaú”.

A medição da régua, que demarca o nível das águas fluviais, junto da ponte metálica, durante muitos anos, foi anotada por Ismael Hilário de Andrade. Mais tarde, incumbiu-se da tarefa o senhor Dino Pirondi, dividindo-a com o seu pai, João Batista Pirondi, o Pirondinho, proprietário de um bar, do lado direito da ponte, em sentido ao bairro Botafogo – próximo do local onde viveu Ismael H. de Andrade. Hoje em dia, o ofício é continuado pelo casal Dino e Dirce Pirondi, sob orientação de técnicos da Agência Nacional das Águas.

Observação também indispensável é o extinto valo localizado entre a casa de Ismael e o rio Moji Guaçu, sendo este barrado por um muro de pedras, construído pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro, na época da ponte de madeira, onde nasciam, com frequência, taboas. O lugar foi aterrado.

Outra lembrança da maior enchente é descrita pelo advogado Dijalma Lacerda, filho do comerciante e pescador Antonio Lacerda, o conhecido “Toninho da Barra”:

    [...] à noite, por algumas vezes, atraídos pelo brilhar das luzes dos postes da ponte, peixes pulavam e eram pegos com as mãos sobre o piso da mesma.  A água passou sobre a rodovia Anhanguera e meu pai passou de lancha a motor sobre a mesma, para desligar as chaves dos postes da Cervam.

Como medida paliativa, em alusão à ponte metálica e um infortúnio maior, o então prefeito municipal, Joaquim Coelho Filho, determinou que funcionários públicos permanecessem no marco histórico ferreirense, e retirassem as madeiras (troncos e galhos de árvores), que trazidas pela corrente das águas, enroscavam-se na ponte.



Por Miguel Bragioni
Pesquisador da história de Porto Ferreira  

* artigo extraído do capítulo 46 do livro Aspectos Históricos de Porto Ferreira, Vol. 2.

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