Porto Ferreira Ontem – O Bloco do Boi e sua história - I
“Boi”, 1963, na Av. Eng. Nicolau de Vergueiro Forjaz; à esquerda, “Toureira Nilsa” - acervo do Museu Histórico e Pedagógico “Prof. Flávio da Silva Oliveira”.

Entre blocos e ranchos temáticos e carros alegóricos, o carnaval ferreirense de 1934 registrou o princípio de uma diferente brincadeira, por meio da inusitada alegoria de um humilde “Boi”, dançando ao compasso de uma zabumba, que pertenceu à popular Maria Angélica – incentivadora do samba e das melodias africanas.

Orestes Rocha, baseando-se em depoimentos orais, descreve as rústicas características da criação do “Boi”, feito por sobras de materiais da Companhia Paulista de Estradas de Ferro e por “uma armação de bambu envolto em tiras de saco de estopa (juta) e coberto com pedaços de lona. Depois de pronto era pintado com pó de sapato (tinta preta).”
Na exibição original, complementaram o cortejo: Toninho Carlos, com um burrinho legítimo e João Malamam vestido de palhaço, além de ferroviários. O sucesso movimentou a cidadezinha; em consequência, o prefeito, Dr. Carlindo Valeriani, solicitou nova apresentação do bloco no sábado de Aleluia.

ORIGEM
Dois esclarecimentos antagônicos se apresentam sobre a origem e o local de saída:
Florisbelo José David, natural de Espírito Santo do Pinhal, passou a infância em São Paulo, e com cerca de 7 anos, no carnaval da Vila Mazzei, presenciou a destacada estrutura de um “Boi”, feito por um time de jogadores de futebol. Guiado por diversos carnavalescos, o “Boi” proporcionou diversão às pessoas, correndo pelas ruas do bairro. Aos 17 anos, morando em Porto Ferreira, Florisbelo, Augusto Moreira e alguns ferroviários não identificados confeccionaram o primeiro “Boi” numa casa geminada, localizada na rua Dona Balbina, nº 340, de propriedade do senhor Leão Tombi, na qual residia Augusto Moreira;

Já o senhor José Américo da Silva Filho, segundo COTOCO (20.2.1993, p. S4), afirma:

    [...] foi trazido por dois linheiros que vieram e Rio Claro e trabalharam de lenheiro, o 1º boi foi feito no pátio da Companhia Paulista (Fepasa) e lá permaneceu por 4 anos. Depois de 5 anos os ferroviários deixaram de fazer o boi, e então o senhor Zé Américo e Aparecido Espírito Santo, que brincavam fantasiados de ciganos junto com o boi, deram continuidade ao Boi” [...]

Em referência à primeira justificativa, conforme consta nos registros históricos, Florisbelo, de fato, fez parte do pioneiro bloco e foi o seu coordenador por cerca de 20 anos. Curiosamente, o “Boi” não saiu do depósito, barracão ou do pátio da Paulista, como declaram alguns, mas da residência supracitada, conforme ratificação que me fez, há alguns anos, a senhora Olga Greve, com 89 anos e lúcida; em 1934, Olga morava na casa vizinha de Moreira.
Por outro lado, em alusão à cidade de Rio Claro, como ponto de origem do “Boi”, deve ser considerada a lembrança do senhor Getúlio Greve, ex-ferroviário e morador daquele município, o qual se recorda, perfeitamente, de uma brincadeira no carnaval, com as corridas do “Boi”, então denominado “Boizinho”. Em conversa, Getúlio atestou que em sua infância (década de 1940), os “boizinhos”, feitos pela garotada, eram comuns. Portanto, há possível co-relação entre as duas cidades, considerando a importância de Rio Claro no aspecto férreo. Condizente aos dois “linheiros”, divulgados na matéria do Extra, suas identidades permaneceram no anonimato até a divulgação de uma importante entrevista com José Américo, post-mortem, pela qual foi revelado o nome de três cidadãos: José Plínio, José Simões e José Silvestrino. Entretanto, não encontrei referências no Museu Histórico e Pedagógico de Rio Claro.

Um fato é unânime: o “Boi” saiu às ruas em 1934 para nunca mais se tornar cativo durante o reinado do Momo.

Entre as pessoas que compuseram o bloco estão registradas: Leodobino, Picolino, Tonico Preto (tocador de zabumba), Antônio Martins, Sebastião Cardoso (tocador de berrante), Sai Cedo, Gumercindo Zanetti (sanfoneiro), Coimbrão, Osório Preto (carregador do estandarte), etc. Violão, trombone e pistão são instrumentos que também acompanharam o “Boi”.

Outros participantes foram: irmãos Joaquim Bernardo (Joaquim da Estância) e Sebastião dos Santos (Sebastião Pampa), responsáveis pela feitura das máscaras do cavalinho, do elefante, da girafa, enfim, das figuras; José Américo da Silva Filho, ajudante da costura; Fioravante Malamam e Tato Tobias fizeram carretos; Aristides Tobias e Oscar Joaquim Espírito Santo carregaram a armação durante os desfiles; mais tarde, Bastião Inhana, Álvaro Américo da Silva e Pereirão tomaram parte da folia.

Entretanto, há algumas pessoas que teimam em afirmar participações de seus ancestrais no tradicional bloco, considerando o isolado argumento de que descendem pura e simplesmente de ferroviários. No arquivo do Museu Histórico ferreirense, assim como em sua hemeroteca, constam apenas os nomes acima mencionados, como responsáveis pelo “Boi” nos primórdios.

A SAÍDA DO “BOI”
Na maioria dos casos, o bloco saiu de lugares amplos: casa de Augusto Moreira; residência dos irmãos Oscar, Nico e Aparecido Espírito Santo; lares de Sebastião dos Santos “Pampa” e do ferroviário Manuel Sanches; chácara e casa da família Malamam, e outros.

DIFICULDADES
Na década de 1950, o “Boi” quase desapareceu. O folião Nilson Malamam, incentivador da brincadeira, assumiu a responsabilidade e instalou o “QG” do bloco na chácara de sua família (rua Francisco Rocha Cupido, onde é o Grêmio da Mar-Girius e adjacências). No local, Walter Fernandes (Walter Xuxada), Aparecido Espírito Santo, cunhado de Nilson, Albino Malamam e outros familiares auxiliaram na confecção do “Boi”, assim como asseguraram sua sobrevivência.

A PEGA DO BOI E OS TOUREIROS
O grande charme do bloco, sem dúvida, consagrou-se diante do corre-corre, proveniente da “fera” e dos acompanhantes: o Burrinho, o Cavalinho, o Porquinho, a Garrafinha e a Nega Maluca, esta assumida, decisivamente, pelo versátil Euclides Rosa, o Cridinho, em 1957. No meio do balanço cadenciado do “Boi”, o povo acompanhava, com olhos compenetrados e atenção redobrada, os passos da imponente figura, de certo modo mais serena que nos dias atuais.

Com essa verve, Nilson Malamam e seu cunhado criaram dois personagens autênticos: os toureiros. Ora, para pegar o boi à unha, necessita-se de toureiro! Assim, Nilson encarnou a “Toureira Nilsa (lê-se com som de /ss/)” e Cido, a toureira Maria Bonita. Alguns anos depois, Jácomo Gentil Filho (Jacominho), num único carnaval, também preencheu este quadro humorístico.

Em determinado instante do desfile, iniciava-se o momento da tourada e a multidão se afastava, concedendo lugar ao espetáculo. Então, os toureiros, com vestimentas femininas, sob o som de “La Virgen de La Macareña”, executada ao trompete pelo Toninho Carrera, apresentavam seus dotes especiais à plateia entusiasmada, recebendo efusivos “olés” durante a exibição.

No carnaval de 1964, José Loureiro assumiu o posto de Nilson e permaneceu com a encenação por dez anos contínuos, época esta em que se extinguiu a brincadeira. (encerra na próxima semana)



Por Miguel Bragioni
Pesquisador da história de Porto Ferreira  

* artigo extraído do capítulo 7 do livro Aspectos Históricos de Porto Ferreira, Vol. 1.

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