Se a Rua Paschoal Moreto Falasse – Crônica de Alex Magalhães

Se a Rua Paschoal Moreto Falasse – Crônica de Alex Magalhães

Se as ruas tivessem língua e não apenas pedras, a Rua Paschoal Moreto teria muito a confessar. Eu, que não sou rua, confesso por ela, pois as calçadas, embora saibam demais, permanecem mudas; e as bocas que falam, ah!, essas pouco sabem. Comecemos pelo protagonista: um homem. Não um anjo, tampouco um vilão shakespeariano. Apenas um homem e que desfaçatez! Com pele negra, estofo de trabalhador e coragem para laborar sob o sol escaldante. Representava, veja o leitor, uma consultoria que realizava pesquisa para a empresa de água e esgoto. Em resumo: suor honesto, gravado nos poros. Nas Ruas de Porto Ferreira, o humano, sim, ainda humano, fora recebido como se merece quem bate à porta com boas intenções. Ofereceram-lhe água fresca, sorrisos e até um café com afeto. Eis ai o Brasil cordial de que falam os livros. Mas, ao pisar a Paschoal Moreto… O cenário mudou. A rua, talvez ressentida com algum trauma que carrega, despertou seus demônios diurnos. Saiu-lhe ao encontro uma senhora, branca, respeitável e dona da infalível certeza. Bastou o homem pronunciar a palavra colaboração para que nela se instalasse o pavor: “Está pedindo contribuição!”, gritou, como sibila delirante. Crachá! Nome! Documentos! Ao que ele, com a paciência que só os perseguidos desenvolvem, apresentou tudo, inclusive a segurança do caráter. Não bastou. O zelo civil da cidadã transformou-se em denúncia veloz, disparada à polícia como se fosse telegrama urgente. Ah, a velocidade do preconceito… chega sempre antes do raciocínio. E lá veio a patrulha, com a autoridade que lhes emprestaram os fantasmas da cidade. Revistaram-lhe o corpo e a dignidade, ali, em espetáculo gratuito para quem passava pela rua José Pires Barbosa. Era preciso conferir se aquele trabalhador não era, na verdade, um ladrão em plena luz do dia. O comentário de uma assistente social, moradora das redondezas, ecoou como lúcida sentença: “Isso é preconceito. Você já tinha ido embora. Não foi medo, foi pessoal.” Eis a sociologia de uma cidade: — Preto trabalhando é suspeito; correndo é ladrão; falando é insolente. – O homem, que não era somente pesquisador, mas também jornalista, escritor e assistente social, ousou lembrar que existe algo chamado lei, ente mítico que às vezes acorda. Disse à autoridade que protegia a “pobre vítima”: “A senhora deverá provar na Justiça o que disse.” A polícia, que não “ouvira” sequer a gramática da frase, apenas o orientou a deixar quieto. Afinal, o negro ali era o suspeito natural, enquanto a denunciante era apenas uma branca inocente, tão frágil que suas palavras ganharam algemas sem assinatura. A criminosa, palavra feia, que a rua cochicha, mas o sistema jamais escreverá, já mudou de endereço. Mudam-se os tijolos, permanece o preconceito. E a rua? Silenciosa como sempre. Mas se falasse, revelaria: “A dona I… realmente cometeu o crime contra a honra, fez injúria, calúnia e difamação? Que absurdo”. Porque, meus caros, no teatro das ruas brasileiras: O negro que trabalha vira réu. A branca que acusa vira vítima. E a justiça… essa continua procurando endereço, sem encontrar o CEP da dignidade. Se a Rua Paschoal Moreto falasse, diria isso. Como não fala, digo eu — e testemunham as pedras.

(Por Alex Magalhães: Essa história aconteceu comigo na Rua Paschoal Moreto, enquanto realizava uma pesquisa socioambiental).

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